1.23.2012

À PROCURA DO SILÊNCIO



Vivemos uma vida cheia de ruídos. Dos headphones do seu Ipod, dos motores e das descargas dos carros que atulham ruas e avenidas, das conversas animadas com seus amigos nas rodas de bar, da escura profusão de sons e cores das boates, de todos os lugares brotam, incessantemente, ruídos, barulhos, vozeria, música estridente. Vivemos o tempo do barulho como regra geral de convivência social, como imperativo de comunicação, de disseminação de idéias, de valores e de tendências. Quando se quer dizer algo, já não vale mais simplesmente o “falar”; ao contrário, as palavras precisam ser berradas, gritadas, acompanhadas dos mais dissonantes acordes, das músicas mais tresloucadas, dos sons mais grandiloqüentes. Vivemos o tempo em que a expressão parece buscar sempre o exagero, o desvairado, em que as pessoas não falam pela necessidade simples do “dizer” o que é importante, mas precisam “extravasar”, “deitar fora”, “falar pra todo o mundo ouvir” o que se passa em seus corações e mentes. Parece-me que já não é necessário o “que” dizer (ou o “por que” dizer), mas sim o “como”.

Em resposta a tudo isso, vem à nossa memória o tão esquecido silêncio. Sim, o silêncio dos excessivamente piedosos, dos sem-graça, dos que não sabem aproveitar a vida, dos que enchem os bancos das igrejas, dos recatados, dos estranhos. Esse silêncio tão renegado aos corredores dos conventos, seminários e monastérios; silêncio desterrado do dia-a-dia das pessoas, como intruso indesejável e sinônimo da falta do que fazer e do que dizer; silêncio tão contrário ao ensurdecedor toque das guitarras das bandas de heavy metal; silêncio tão inimigo da batida eletrônica incessante das noites dos jovens, que se esbaldam na droga e no sexo em festas intermináveis; silêncio abolido das bocas e dos olhares dos que amamos e dos que nos amam, relacionamentos marcados por palavras e sons demais, e gestos de menos.

Viver o silêncio hoje é como experimentar uma realidade muito antiga, quase medieval, em que as vidas das pessoas eram marcadas pelo ritmo lento dos acontecimentos e as pessoas tinham tempo de observar (mais do que falar sobre) aquilo que havia à sua volta. Não se quer, aqui, traçar um painel histórico ou antropológico do papel do silêncio na vida do homem, mas simplesmente fazer recordar tempos em que ele ainda fazia parte da vida das pessoas. Tampouco de trata de uma volta ao passado, um ranço de nostalgia em meio a desilusões com o tempo presente, mas trazer ao centro da nossa vida esse silêncio tão necessário aos dias de hoje, porque tão rico na sua experiência em deixar calar as nossas vozes para que uma outra Voz possa falar.

Não é à toa que o silêncio traz à mente, de cara, os nossos conhecimentos e vivên-cias religiosos. O silêncio faz parte dos ensinamentos da Igreja a respeito do conhecimento de Deus, como caminho de autoconhecimento e experiência pessoal com a Trindade a partir da vida interior. Está nas passagens bíblicas, especialmente nos Evangelhos, nos quais vemos a importância do recolher-se, do meditar, do “guardar as coisas no coração” como sinais de fecundidade nas vidas de Jesus e Maria; está nos escritos da Igreja dos primeiros séculos, especialmente dos Padres do deserto; nas pregações e confidências dos santos, bem como em suas experiências ascéticas; nas recomendações do Magistério da Igreja, como linha pastoral e doutrinária que leva à experiência de Cristo no dia-a-dia dos fiéis; está na herança litúrgica recolhida ao longo dos séculos, pela qual se descobre que o encontro com Cristo passa pelo recolhimento e discrição dos gestos, e não pelo espalhafato das palavras.

No entanto, como quase tudo o que diz respeito às práticas cristãs (e católicas), o silêncio ficou fora de moda, virou coisa do passado, artigo de museu. Para sobrevi-ver, teve de se esconder nos claustros, nas celas conventuais, nas orações dos mon-ges. Teve de fugir, inclusive, das novas tendências dentro da própria Igreja, tão marcada atualmente pelo louvor, pelas práticas de fé regadas a muitas lágrimas, cantos e danças. Virou coisa de santo que se coloca nos andores, nos presbitérios, virou relíquia de um passado religioso muito distante – e sinônimo do lado sombrio de Deus. Ganhou ranço de velha sacristia, odor de incenso de missa rezada em latim.

Propor a volta do silêncio, pois, não só à nossa vida religiosa como também ao nosso cotidiano não é das tarefas mais fáceis. Mas torna-se imprescindível antes à necessidade de um encontro cada vez profundo com esse Deus de Amor, distante das nossas orações e da intimidade do nosso coração. Quando há barulhos demais, não há espaço para que nossas lágrimas falem, o nosso jejum de vida interior se manifeste, a nossa desorientação fique a descoberto. Quando há barulhos demais em nossa alma, com muitas vozes clamando por atenção e atraindo a nossa sede de sentir, o próprio Deus, que respeita a nossa decisão e a nossa liberdade, não encontra ocasião para falar.

É próprio de Deus falar com a voz do silêncio porque o silenciar é a primeira manifestação interior da busca por Ele, da necessidade interior de acercar-se de Sua Graça. Ou ainda, é a primeira prova de nosso amor por Ele, já que denota toda a disponibilidade do nosso coração e da nossa alma ao seu chamado e ao seu encontro. Há que mencionar aqui, entretanto, a nossa grande má vontade em encontrar-se com esse Deus que nos parece frio, tirânico, sem vida, insensível. Provavelmente, a grande fuga do silêncio se deve a uma fuga desse Encontro, haja vista que as nossas idéias erradas de Deus soterram toda a inclinação do nosso coração até Ele. Um Deus que fere por Suas duras palavras, que machuca na Sua incisiva condenação dos nossos pecados e faltas, que está sempre sério e carrancudo no Seu atuar e agir não merece a minha atenção.

Deus precisa fazer sentido pra mim, a fim de que eu queira encontrá-lO e faça dele a razão e o norte do meu ser e dos meus atos. E a chave para uma nova compreensão de Deus como Amor, como Pai, como Vida, como Sentido e Meta de nossa caminhada, passa pela experiência do silêncio. O silêncio como abandono nos Seus braços de Pai, que acalentam e suportam comigo das dores e os desafios da vida; o silêncio como ocasião de escuta de Sua mensagem de Amor, através da meditação das Sagradas Escrituras; o silêncio como meditação dos mistérios de Deus e das riquezas de sua criação, que se manifestam através da observação serena da natureza, das pessoas ao nosso redor e da vida que corre ante os nossos olhos; o silêncio como vivência da humildade, pelo reconhecimento das próprias dificuldades no caminho e pela confiança de que serão vencidas somente com a Graça que vem do alto; o silêncio como via de autoconhecimento e, através dele, do conhecimento do próprio Deus que habita no mais profundo do nosso ser; do silêncio como propiciador de paz interior, tão importante a que se formem consciências sãs e pessoas amadurecidas.

O silêncio descrito aqui não é somente o calar a boca. Há que calar também os outros sentidos, as inclinações interiores, a nossa vontade e, principalmente, a nossa alma e o nosso coração, para que possamos deixar Deus falar conosco. O silenciar diante do Pai enriquece-nos interiormente porque vem acompanhado de gestos concretos e genuínos de amor, de reverência, de mansidão e pequenez. Cria em nós a consciência de sermos filhos diante de Deus, permite-nos viver dessa dependência d’Ele como crianças que buscam confiança e fortaleza nos pais. Prepara-nos para a aventura de amor na vivência árida nosso cotidiano, porque é o espaço onde promovo o Céu na Terra, onde Deus se encontra comigo e manifesta todo o Seu Amor e a Sua Misericórdia. E, igualmente, é ocasião propícia a que aprendamos a ministrar este Amor como testemunho e missão em meio a pessoas e ocasiões na vida. O silêncio torna-se linguagem especial, pela qual expressamos um discurso rico de significados e sentidos, de valores que não se perdem porque estão impregnados de sabedoria e vida interior.

E, por fim, o silêncio é resposta madura e incisiva contra a corrente de ruídos que alienam, que despersonalizam e que nos tiram o foco do aprofundamento da nossa vida interior e do nosso crescimento pessoal. E, em última instância, que nos afastam desse Deus Pai que é próprio fundamento da nossa história e o sentido da nossa vida.


1.08.2012

O QUE VOCÊ QUER SER DE VERDADE


O pensamento objetivo defende que, para podermos conhecer verdadeiramente as coisas, devemos conceituá-las e colocá-las em categorias válidas de classificação, a fim de sabermos exatamente todas as suas características próprias e entendermos sua função e finalidades específicas. Este é o método eficaz de conhecimento que o modo de ver e utilizar inatos da sociedade atual elegeu como o mais brilhante para avançar tecnicamente e assim produzir cada vez mais. Conhecer tornou-se, assim, o ato de conceituar, classificar e determinar a utilidade dos objetos, ações de cunho científico e econômico que determinam a sua razão de ser. De certa maneira, tais métodos são aplicados também a muitos âmbitos da realidade concreta e, infelizmente, às relações pessoais e aos indivíduos. Segundo esta maneira de pensar, o conhecimento mútuo entre as pessoas passa pela averiguação das características próprias de cada um, sua classificação social, profissional e comportamental e pelo papel que elas cumprem na engrenagem comunitária onde o fazer vem antes do ser.

Viver em sociedade hoje significa estar em um nicho delimitado, assumir atitudes e comportamentos previamente testados e aprovados, consumir produtos cuja fruição agrega valor e dignidade ao usuário e assumir uma ética onde os valores e as normas são ditados sob o controle restrito de tendências de mercado. Isso toca profundamente na definição da personalidade e no crescimento moral e ético das pessoas. Todos nós somos impelidos a aceitar conceitos que não nos definem e classificações que não nos ajudam a amadurecer segundo nossa própria maneira de ser.

A experiência plena de liberdade e maturidade passa por um sadio autoconhecimento, por meio do qual aprendemos que somos fruto de uma história de vida escrita a quatro mãos, as nossas e as de Deus. Além disso, ela nos ajuda a descobrir que viemos de Deus, de Sua Misericórdia, e que somos reflexo de Sua grandeza e dignidade. Somos irrepetíveis, dons incomparáveis que se traduzem em riquezas para nosso próximo e que não se podem classificar em meras categorias de funcionalidade e valor social. Percebo que a angústia percebida no coração e na alma das pessoas é fruto dessa visão de mundo onde os conceitos que nos são impostos acabam determinando nossas escolhas de vida e ditando atitudes que não refletem nossa essência e nossa individualidade.

É um desafio imenso para nós, cristãos, que somos chamados a dar testemunho dos valores evangélicos em face de um contexto social onde a moralidade é ditada por tendências e modismos e não pela dignidade própria de cada pessoa. A realeza de sermos filhos de Deus e templos da Trindade, apóstolos do amor misericordioso de Cristo que morreu e ressuscitou para nos dar vida plena, perde-se no emaranhado de uma cultura utilitarista e materialista. O critério do amor divino – que incita a agir, a viver e a ordenar tudo para o amor – é substituído pela ganância do maior lucro e do melhor resultado, indício de bem-estar neste meio individualista e competitivo em que estamos inseridos. Fazer frente a isso significa crescer à luz de princípios sólidos e exercer a liberdade e a caridade orientadas ao engrandecimento do Reino de Deus em nosso entorno social.

Cristo nos mostra quem somos verdadeiramente por meio do Seu Evangelho e Sua presença eucarística na Igreja. Como membros de Seu corpo, nos toca viver a caridade como imperativo ético e trabalhar para que a verdadeira dignidade humana, fundada sobre o respeito, a tolerância e a misericórdia, possa ser resgatada e plenamente vivida em nosso meio social. Para isso, é necessário que cresçamos heroicamente na nossa vocação dada por Deus, que respeitou e respeita nossa maneira de ser e nossa individualidade como regalos de amor para as outras pessoas e como agentes de transformação num mundo coletivista e massificado. A partir dessa auto-compreensão e da assunção das verdades cristãs que nos impulsionam a buscar e a viver a santidade, pode-se combater a concepção doentia de que as pessoas valem pelo que aparentam ou pelo que produzem, e não pelo que verdadeiramente são.

Nossa meta deve ser buscar a estatura de Cristo a partir dos dons e talentos que nos foram confiados, na certeza de que somos Filhos de Deus, criados por amor e para o amor. E, consequentemente, levar a outras pessoas a descobrirem-se portadoras do mesmo valor e da mesma missão. Isso implica lutar contra conceitos e classificações sociais destrutivos e nocivos, que levam à deturpação e manipulação da nossa imagem e do nosso papel social em atendimento a interesses que não nos convêm e que prejudicam nosso desenvolvimento pessoal. Nossa essência e nosso valor residem na Trindade e somente ela é critério válido para definir quem somos de verdade e a missão pela qual Deus nos chama a dar a vida, a fim de chegarmos à felicidade plena.

12.26.2011

NASCER


Um pouco incomodado com esse tradicional rosário de boas intenções que emerge das contas de e-mail, das caixas de correio e das reuniões sociais das que invariavelmente participamos neste tempo de Natal, me pus a pensar sobre coisas que fariam realmente sentido em meditar e compartilhar sobre a realidade do nascimento de Cristo. O tempo natalino sempre teve uma importância capital para mim, não somente pelo significado religioso – que me toca profundamente – mas pela carga de sentido humano que nos motiva à celebração e à revisão de vida. Muita coisa foi soterrada pela monstruosa comercialização dos símbolos e pela frieza com que nos acostumamos a vivenciá-la, mas percebo ainda dentro das pessoas um anelo profundo de que este tempo preencha de valor suas vidas empurradas ao sabor dos modismos e da perda dos sentimentos mais importantes. Os bons votos me incomodam porque dificilmente vão acompanhados de atitudes e posturas sinceras, que corroborem a mensagem e que realmente sejam o propulsor de uma mudança de mentalidade tão necessária para nós nestes tempos áridos. Por este motivo, busquei uma frase do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry já conhecida minha desde muito tempo e que andou dando muitas voltas na minha cabeça nesse tempo de preparação pro Natal: “Viver é nascer lentamente”.

Muita da alegria agregada ao tempo natalino vem do fato de que ele tocou muito profundamente a nossa infância. As reuniões em família, a troca de presentes, a simbologia muito própria das luzes e das árvores, as expectativas dos tempos que viriam (e que trariam suas mudanças), tudo fascinava os nossos corações porque nos davam um sabor mágico, vivo e alegre. Ser criança é sempre deslumbrar-se e maravilhar-se com tudo o que nos rodeia (apesar de que isso, hoje em dia, está-se perdendo pela necessidade de adultização forçada que a sociedade empurra sobre nós); é ter coração, olhos e alma sempre abertos para as infinitas possibilidades da vida que se descortina diante de nós, e sempre dispostos a abraçar o sentido mais profundo das pessoas e das realidades, por conta da pureza e da inocência que nos é inata quando somos pequenos. Natal, para mim, significava o colorido de uma vida que se abria vagarosa e vivamente para mim, com a força dos desejos mais ternos de paz e alegria intermináveis. Significa a comunhão de vida, a força do amor renascendo constantemente.

Viver é nascer lentamente. O nascimento de Cristo nos abre uma infinidade de símbolos que reforçam, hoje mais do que nunca, a necessidade de estarmos atentos a este tempo de Natal e a vivê-lo com muita profundidade. Para mim, o símbolo do nascimento em si é o que realmente importa, porque o sinal da Criança que vem ao mundo atendendo aos apelos de paz e união em Sua própria pessoa é forte demais para que eu perca em outras imagens, fúteis e infrutíferas (e que se intrometem em nossa imaginação em anúncios e em shoppings centers da vida). Cristo vem até nós como criança, e a imagem da sua pequenez e pobreza traduz um Natal que talvez tenhamos vivido mas que se perdeu sob o acúmulo de tantas desilusões e aparências. Um Natal de um Menino que nasce num tempo de esperas, um sinal vivo e singelo de que Deus age e continua a agir no meio de nós e está atento a nossas necessidades de crescimento e amadurecimento. Cristo se faz pequeno porque Deus se compraz na pequenez e na humildade, porque Ele sempre se manifesta no silêncio e na delicadeza da quietude. Faz-se pobre porque é na simplicidade que se revela claramente a essência da mensagem de amor que Deus nos transmite ao doar Seu Filho ao mundo.

Este tempo nos estimula a viver Cristo que nasce em nosso coração e em nossa vida todos os dias, lentamente, como semente de uma existência carregada de sentido e preenchida pela grandeza de Deus. Natal não é um apenas um ponto festivo em nosso calendário ou uma desculpa social para reuniões de aparente cordialidade entre familiares e conhecidos, mas um acontecimento concreto que se atualiza constantemente em nós e que vai tomando paulatinamente nossa vida, curando nossas enfermidades interiores e nos tornando cada vez mais como Cristo, filhos pequenos e amados por Deus. Penso que aquele olhar maravilhado de quando éramos crianças, que nos permitia abraçar o infinito sem a necessidade de satisfações materiais criadas pelo consumismo, é a chave para compreender o significado profundo deste tempo que vivemos. É preciso ser pequeno, simples e singelo como as crianças para perceber o que Deus realmente deseja quando se faz homem no meio de nós. É preciso não perder de vista o significado profundo do Amor Encarnado para que não sejamos mero repetidores de modismos, mas testemunhas autênticas desse acontecimento profundo e misterioso: Deus está no meio de nós!

Cristo quer nascer lentamente em nossas vidas, quer nascer sempre em cada pequeno fato e circunstância de nossa existência. Quer levar sua pequenez e sua inocência de menino a todos os lugares saturados de frieza e solidão, de desamor e de egoísmo. Quer transformar desde dentro uma realidade que perdeu os valores essenciais e que vive de arremedos e falsas compensações. Com Cristo constantemente nascendo em nós, somos introduzidos no amor de Deus, um amor cálido e simples que responde aos nossos anseios mais profundos de uma vida vivida com beleza e alegria. Em Seu nascimento, somos chamados a viver como se nascêssemos todos os dias, experimentando a graça de abraçar a grandeza do Pai com o olhar terno e meigo de filhos amados.

6.21.2011

AS CANÇÕES QUE FIZERAM PRA MIM


Escrever sobre música custa muito pra mim. Como mensagem definidora de quem eu sou, de como cresci e amadureci, bem como das escolhas e atitudes que assumi ao longo da minha vida, a música se tornou maiúscula e vital para entender a minha personalidade. Desde que eu me entendo por gente, sempre havia algum som embalando os grandes e pequenos acontecimentos do cotidiano, e a sensação de que a vida tem uma trilha sonora especial pra cada um tomou corpo em mim. No disco, no rádio, na vitrola, no CD, no cassete, no mp3, sempre havia uma canção tocando, e não era apenas um cenário ou um pano de fundo, mas algo fundamental para marcar os fatos e as datas, bem como todas as impressões deixadas bem fundo, como algo vivo, fundamental. Falar de música é difícil porque não é coisa para se definir, mas para sentir, e é como se fosse um aroma, que te leva a lugares, pessoas e épocas incríveis, e que costuram tudo em algo que só diz respeito a você, e mais ninguém. É difícil também porque, depois de tanto tempo, já escutei mais músicas do que as que poderia guardar, e todas elas, de alguma maneira, guardam um significado especial, único, decisivo. E é difícil, ainda, porque há uma torrente de músicas ainda não ouvidas, e que estão esperando ser executadas e apreendidas, e é um vício do qual é quase impossível se desfazer.

Muitas das sensações que tive – e que encontraram eco nos valores que recebi e na minha vida espiritual – vieram acompanhadas de música. Tanto quanto a literatura (que irá merecer um post só dela...), ela teve (e tem) o papel de traduzir sonoramente as ideais, percepções e anelos que eu cultivo interiormente e que me fazem ver as coisas de maneira sempre instigante e surpreendente. Por isso, elaborei uma lista de música que calam fundo na minha alma e que me ajudaram a definir o pensamento e o espírito, sem um critério muito definido. São músicas que trazem mensagens ricas e soluções poéticas maravilhosas sobre temas que são muito caros pra mim. Elas falam aquilo sobre o que eu não consigo escrever...

DE ONDE VEM A CALMA (Los Hermanos)

http://www.youtube.com/watch?v=zoCCssAajyA

Canção com tintas muito biográficas, como se fosse um raio-X meu. Fala da ousadia de não caber em conceitos (um tema que me é muito caro...), mas de manter o espírito livre e confiante diante dos desafios. Me toca profundamente porque trata de incapacidades e fraquezas, as quais são superadas com delicadeza e fé e que deságuam num singelo autodomínio.

MAGAMALABARES (Marisa Monte)

http://www.youtube.com/watch?v=c1-qHjRp-_o

Essa música tem uma frase que, pra mim, é fundamental: “Quem tem Deus como império, no mundo não está sozinho”. Poesia pura, e a voz da Marisa traz um lirismo que é de chorar.

CAÇADOR DE MIM (Milton Nascimento)

http://www.youtube.com/watch?v=CfcDOaS-344

A busca por mim mesmo, e a alegria de perder-se e encontrar-se no caminho. Conhecermo-nos e conhecer a graça que possuímos, na ousadia de saber que, dentro de nós, há a beleza da vida. A voz do Milton só reforça o caráter humano (e profundamente divino) da música, a qual me ajudou a prosseguir na luta pela conquista da liberdade interior.

LET IT BE (Beatles)

http://www.youtube.com/watch?v=RdopMqrftXs

Música meio clichê dos Beatles, mas que, muito pela influência do meu pai, me pegou de jeito há muito tempo. Mensagem de despojamento, de entrega, de libertação, de confiança. E ainda uma interpretação mariana (“Mother Mary comes to me...”) que, se não foi intencional, deixa a música mais especial mim.

PUT YOUR RECORDS ON (Corinne Bailey Rae)

http://www.youtube.com/watch?v=wkEeNpWMvgk

Embora tenha um viés claramente feminino, a música me cativa pela opção pelo descompromisso e pelo convite à liberdade. A voz da Corinne e a melodia são de uma doçura ímpar, que me levam a buscar as coisas simples e boas da vida. E há ainda uma chamada irrecusável: coloque seu som pra tocar...

THREE LITTLE BIRDS (Gilberto Gil)

http://www.youtube.com/watch?v=Xv7AUpHt70o

Mais um convite à despreocupação, que parece ser uma sina muito particular minha. Uma vontade de enxergar as coisas sem pressa e com poesia, sem maiores preocupações que as que são inevitáveis. O arranjo que transforma o reggae em forró é um capítulo (especial) à parte.

FELICIDADE (Chicas)

http://www.youtube.com/watch?v=YiHsZZm8enU

O importante é que eu seja feliz! Este é o lema dessa música do Gonzaguinha que fala muito particularmente na minha alma. As vozes das Chicas são sublimes. A alegria, que se derrama quente no coração da gente, é o desejo velado de todos nós, que na música é traduzido de forma muito potente e muito rica.

OLHOS ABERTOS (Elis Regina)

http://www.youtube.com/watch?v=5Njq-KRkFks

Minha carta de intenções pessoal, pra minha vida e pra minha vocação. Quem dera se, como sacerdote, eu pudesse “encontrar as pessoas e ficar de mãos dadas com elas, conversar com a boca e os olhos do coração”. Resume tudo o que busco como ser humano. O fato de ser cantada pela Elis só acentua a importância da mensagem...

PACIÊNCIA (Lenine)

http://www.youtube.com/watch?v=sXmWAOIWg3w

Já escrevi um post inteiro com essa música. Me estimula a viver a vida com profundidade, na contramão da pressa das pessoas, dos fatos e dos sentimentos. É música pra meditar devagarinho, para pensar nossas escolhas pelo filtro do silêncio, da concentração e da sensibilidade da escuta. Quase um mantra.

SE EU QUISER FALAR COM DEUS (Pedro Mariano e César Camargo Mariano)

http://www.youtube.com/watch?v=VEjsmV6_TQU

A música da minha vida. Nunca escutei uma canção que refletisse tão bem a maneira como eu me vejo, como eu vejo a minha vida espiritual e a minha relação com Deus. Toda a verdade concentrada em poesia rica de significados, marcada pelo mistério e pela transcendência. Um convite a buscar as coisas do alto, as coisas do Pai.