
Um pouco incomodado com esse tradicional rosário de boas intenções que emerge das contas de e-mail, das caixas de correio e das reuniões sociais das que invariavelmente participamos neste tempo de Natal, me pus a pensar sobre coisas que fariam realmente sentido em meditar e compartilhar sobre a realidade do nascimento de Cristo. O tempo natalino sempre teve uma importância capital para mim, não somente pelo significado religioso – que me toca profundamente – mas pela carga de sentido humano que nos motiva à celebração e à revisão de vida. Muita coisa foi soterrada pela monstruosa comercialização dos símbolos e pela frieza com que nos acostumamos a vivenciá-la, mas percebo ainda dentro das pessoas um anelo profundo de que este tempo preencha de valor suas vidas empurradas ao sabor dos modismos e da perda dos sentimentos mais importantes. Os bons votos me incomodam porque dificilmente vão acompanhados de atitudes e posturas sinceras, que corroborem a mensagem e que realmente sejam o propulsor de uma mudança de mentalidade tão necessária para nós nestes tempos áridos. Por este motivo, busquei uma frase do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry já conhecida minha desde muito tempo e que andou dando muitas voltas na minha cabeça nesse tempo de preparação pro Natal: “Viver é nascer lentamente”.
Muita da alegria agregada ao tempo natalino vem do fato de que ele tocou muito profundamente a nossa infância. As reuniões em família, a troca de presentes, a simbologia muito própria das luzes e das árvores, as expectativas dos tempos que viriam (e que trariam suas mudanças), tudo fascinava os nossos corações porque nos davam um sabor mágico, vivo e alegre. Ser criança é sempre deslumbrar-se e maravilhar-se com tudo o que nos rodeia (apesar de que isso, hoje em dia, está-se perdendo pela necessidade de adultização forçada que a sociedade empurra sobre nós); é ter coração, olhos e alma sempre abertos para as infinitas possibilidades da vida que se descortina diante de nós, e sempre dispostos a abraçar o sentido mais profundo das pessoas e das realidades, por conta da pureza e da inocência que nos é inata quando somos pequenos. Natal, para mim, significava o colorido de uma vida que se abria vagarosa e vivamente para mim, com a força dos desejos mais ternos de paz e alegria intermináveis. Significa a comunhão de vida, a força do amor renascendo constantemente.
Viver é nascer lentamente. O nascimento de Cristo nos abre uma infinidade de símbolos que reforçam, hoje mais do que nunca, a necessidade de estarmos atentos a este tempo de Natal e a vivê-lo com muita profundidade. Para mim, o símbolo do nascimento em si é o que realmente importa, porque o sinal da Criança que vem ao mundo atendendo aos apelos de paz e união em Sua própria pessoa é forte demais para que eu perca em outras imagens, fúteis e infrutíferas (e que se intrometem em nossa imaginação em anúncios e em shoppings centers da vida). Cristo vem até nós como criança, e a imagem da sua pequenez e pobreza traduz um Natal que talvez tenhamos vivido mas que se perdeu sob o acúmulo de tantas desilusões e aparências. Um Natal de um Menino que nasce num tempo de esperas, um sinal vivo e singelo de que Deus age e continua a agir no meio de nós e está atento a nossas necessidades de crescimento e amadurecimento. Cristo se faz pequeno porque Deus se compraz na pequenez e na humildade, porque Ele sempre se manifesta no silêncio e na delicadeza da quietude. Faz-se pobre porque é na simplicidade que se revela claramente a essência da mensagem de amor que Deus nos transmite ao doar Seu Filho ao mundo.
Este tempo nos estimula a viver Cristo que nasce em nosso coração e em nossa vida todos os dias, lentamente, como semente de uma existência carregada de sentido e preenchida pela grandeza de Deus. Natal não é um apenas um ponto festivo em nosso calendário ou uma desculpa social para reuniões de aparente cordialidade entre familiares e conhecidos, mas um acontecimento concreto que se atualiza constantemente em nós e que vai tomando paulatinamente nossa vida, curando nossas enfermidades interiores e nos tornando cada vez mais como Cristo, filhos pequenos e amados por Deus. Penso que aquele olhar maravilhado de quando éramos crianças, que nos permitia abraçar o infinito sem a necessidade de satisfações materiais criadas pelo consumismo, é a chave para compreender o significado profundo deste tempo que vivemos. É preciso ser pequeno, simples e singelo como as crianças para perceber o que Deus realmente deseja quando se faz homem no meio de nós. É preciso não perder de vista o significado profundo do Amor Encarnado para que não sejamos mero repetidores de modismos, mas testemunhas autênticas desse acontecimento profundo e misterioso: Deus está no meio de nós!
Cristo quer nascer lentamente em nossas vidas, quer nascer sempre em cada pequeno fato e circunstância de nossa existência. Quer levar sua pequenez e sua inocência de menino a todos os lugares saturados de frieza e solidão, de desamor e de egoísmo. Quer transformar desde dentro uma realidade que perdeu os valores essenciais e que vive de arremedos e falsas compensações. Com Cristo constantemente nascendo em nós, somos introduzidos no amor de Deus, um amor cálido e simples que responde aos nossos anseios mais profundos de uma vida vivida com beleza e alegria. Em Seu nascimento, somos chamados a viver como se nascêssemos todos os dias, experimentando a graça de abraçar a grandeza do Pai com o olhar terno e meigo de filhos amados.
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