1.08.2012

O QUE VOCÊ QUER SER DE VERDADE


O pensamento objetivo defende que, para podermos conhecer verdadeiramente as coisas, devemos conceituá-las e colocá-las em categorias válidas de classificação, a fim de sabermos exatamente todas as suas características próprias e entendermos sua função e finalidades específicas. Este é o método eficaz de conhecimento que o modo de ver e utilizar inatos da sociedade atual elegeu como o mais brilhante para avançar tecnicamente e assim produzir cada vez mais. Conhecer tornou-se, assim, o ato de conceituar, classificar e determinar a utilidade dos objetos, ações de cunho científico e econômico que determinam a sua razão de ser. De certa maneira, tais métodos são aplicados também a muitos âmbitos da realidade concreta e, infelizmente, às relações pessoais e aos indivíduos. Segundo esta maneira de pensar, o conhecimento mútuo entre as pessoas passa pela averiguação das características próprias de cada um, sua classificação social, profissional e comportamental e pelo papel que elas cumprem na engrenagem comunitária onde o fazer vem antes do ser.

Viver em sociedade hoje significa estar em um nicho delimitado, assumir atitudes e comportamentos previamente testados e aprovados, consumir produtos cuja fruição agrega valor e dignidade ao usuário e assumir uma ética onde os valores e as normas são ditados sob o controle restrito de tendências de mercado. Isso toca profundamente na definição da personalidade e no crescimento moral e ético das pessoas. Todos nós somos impelidos a aceitar conceitos que não nos definem e classificações que não nos ajudam a amadurecer segundo nossa própria maneira de ser.

A experiência plena de liberdade e maturidade passa por um sadio autoconhecimento, por meio do qual aprendemos que somos fruto de uma história de vida escrita a quatro mãos, as nossas e as de Deus. Além disso, ela nos ajuda a descobrir que viemos de Deus, de Sua Misericórdia, e que somos reflexo de Sua grandeza e dignidade. Somos irrepetíveis, dons incomparáveis que se traduzem em riquezas para nosso próximo e que não se podem classificar em meras categorias de funcionalidade e valor social. Percebo que a angústia percebida no coração e na alma das pessoas é fruto dessa visão de mundo onde os conceitos que nos são impostos acabam determinando nossas escolhas de vida e ditando atitudes que não refletem nossa essência e nossa individualidade.

É um desafio imenso para nós, cristãos, que somos chamados a dar testemunho dos valores evangélicos em face de um contexto social onde a moralidade é ditada por tendências e modismos e não pela dignidade própria de cada pessoa. A realeza de sermos filhos de Deus e templos da Trindade, apóstolos do amor misericordioso de Cristo que morreu e ressuscitou para nos dar vida plena, perde-se no emaranhado de uma cultura utilitarista e materialista. O critério do amor divino – que incita a agir, a viver e a ordenar tudo para o amor – é substituído pela ganância do maior lucro e do melhor resultado, indício de bem-estar neste meio individualista e competitivo em que estamos inseridos. Fazer frente a isso significa crescer à luz de princípios sólidos e exercer a liberdade e a caridade orientadas ao engrandecimento do Reino de Deus em nosso entorno social.

Cristo nos mostra quem somos verdadeiramente por meio do Seu Evangelho e Sua presença eucarística na Igreja. Como membros de Seu corpo, nos toca viver a caridade como imperativo ético e trabalhar para que a verdadeira dignidade humana, fundada sobre o respeito, a tolerância e a misericórdia, possa ser resgatada e plenamente vivida em nosso meio social. Para isso, é necessário que cresçamos heroicamente na nossa vocação dada por Deus, que respeitou e respeita nossa maneira de ser e nossa individualidade como regalos de amor para as outras pessoas e como agentes de transformação num mundo coletivista e massificado. A partir dessa auto-compreensão e da assunção das verdades cristãs que nos impulsionam a buscar e a viver a santidade, pode-se combater a concepção doentia de que as pessoas valem pelo que aparentam ou pelo que produzem, e não pelo que verdadeiramente são.

Nossa meta deve ser buscar a estatura de Cristo a partir dos dons e talentos que nos foram confiados, na certeza de que somos Filhos de Deus, criados por amor e para o amor. E, consequentemente, levar a outras pessoas a descobrirem-se portadoras do mesmo valor e da mesma missão. Isso implica lutar contra conceitos e classificações sociais destrutivos e nocivos, que levam à deturpação e manipulação da nossa imagem e do nosso papel social em atendimento a interesses que não nos convêm e que prejudicam nosso desenvolvimento pessoal. Nossa essência e nosso valor residem na Trindade e somente ela é critério válido para definir quem somos de verdade e a missão pela qual Deus nos chama a dar a vida, a fim de chegarmos à felicidade plena.

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